O Drama Menstrual de Jane Austen - O horror ao sangue
O Drama Menstrual de Jane Austen (2024) é um divertido filme inglês, curta-metragem.
Inicia-se com uma declaração entre duas pessoas apaixonadas, o Sr. Dicley e Estrogenia Talbot. Quando ambos pareceram se entender, a proposta de casamento do Sr. Dicley é interrompida pela presença de sangue. Talbot menstruou, próximo àquele instante. Todavia, o Sr. Dicley parece não conhecer esse fenômeno e apronta um desespero, pois acreditou que a Sra. Talbot estava ferida.
A trama prossegue, com uma dose importante de humor, até as resoluções finais. A família de Talbot achava melhor não contar para o homem sobre o que realmente estava acontecendo - a menstrução -, enquanto ela tentava quebrar essa proibição e falar, abertamente, sobre esse acontecimento.
É curioso assistir a algo sobre essa temática na atualidade. Mesmo nos tempos contemporâneos falar sobre alguns assuntos ainda carrega consigo uma dose considerável de proibição. Há tabus que evitamos falar. Sexo, por exemplo, ainda é um assunto difícil de ser conversado em diversos níveis: de pais da para filhos, de filhos para pais, entre amigos ou até mesmo entre duas pessoas que fazem sexo.
O corpo da mulher e os fenômenos circunscritos a ele, também são rodeados de tabus. Pode parecer estranho, para alguns, como a menstruação era algo indizível no século XIX, como retrata a obra. Mas não é exagero algum. Havia, e talvez ainda haja, uma concepção de que é algo sujo, algo que não pode ser explícito. Uma mulher menstruar, quando não se preveniu o suficiente para isso, é visto pelos demais como espantoso e a própria mulher pode vir a se sentir vergonha. Curioso como um fenômeno biológico básico do corpo humano é visto dessa forma, mas não anormal, afinal sempre fizemos isso com todos excrementos do corpo.
Voltando em específico para a questão do sangue, o filme me lembrou um texto de Freud, em que ele discorria sobre a psicologia do amor e, em um dos subtemas que desenvolveu, dizia sobre o tabu da virgindade que ocorria, sobretudo, pelo horror ao sangue. Os homens, de diversas culturas, temem o sangue, em especial o sangue feminino. Algumas culturas pensavam que a menstruação era a representação de algo tão impuro quanto a mordedura de um animal ou de um espírito ancestral.
No entanto, a questão vai muito além disso. Não é apenas o sangue, talvez seja sobre a mulher em si. A mulher é essa figura que gera no homem um estranhamento que erige tabus. A menstruação, a gravidez, o parto, o puerpério são situações que desafiam a rasa compreensão masculina e coloca os homens diante de algo inquietante.
Os tabus surgem diante daquilo que consideramos ser ameaças. Em Duas pessoas trocando saliva, o beijo foi instituído como tabu, porque era considerado, em algum nível, uma ameaça àquela civilização. Falar sobre o aborto enquanto questão de saúde pública, discutir sobre a legalização da maconha, propor debates sobre suicídio assistido e eutanásia são tabus, porque representam para certos interesses, em geral conservadores, ameaças. Tabus existem e, em algum momento, podem ser quebrados por forças subversivas, embora seus efeitos costumem perdurar no tempo.
O tabu do sangue, muito bem representado no "Drama Menstrual de Jane Austen", é algo que ainda existe, embora muito menos intenso e proibitivo do que no século XIX. É um filme que diverte, mas que faz pensar sobre os limites que nós mesmos colocamos em nossa existência, para caber em pactos civilizatórios.
Lucas Alves
CRP04/67750
Insta: @psi_lucashfalves
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