O princípio de prazer e o princípio de realidade
Freud postulou que toda neurose tem como propósito arrancar o sujeito da vida real, alienando-o da realidade. Observando o desenvolvimento humano, percebemos como essa dicotomia entre real e imaginário, perpassa o nosso psiquismo. Para melhor compreensão disso, vale a pena se aprofundar em dois conceitos fundamentais para a psicanálise: o princípio de prazer e o princípio de realidade.
O princípio de prazer remete a nossos primeiros momentos enquanto seres vivos. Instantes após o nascimento - segundo alguns autores antes mesmo disso - já somos submetidos ao imperativo do prazer. Buscamos diferentes formas de satisfação, buscamos evitar e afastar qualquer forma de desprazer. Utilizamos variados meios para erigir nossas defesas: a negação e a repressão, especialmente. A medida que vamos adquirindo consciência da realidade, nossos desejos e prazeres acabam se chocando as exigências da civilização. Percebemos que não será possível atender a todos os nossos desejos. Para muitos, isso é adoecedor.
O princípio da realidade é, portanto, uma exigência à adaptação, conciliação ou mesmo repressão por prazer por meio das imposições da realidade. Tem em comum com o princípio do prazer um ideal de se defender de danos, porém, de maneira mais consciente e real. O imperativo da realidade nos obriga a questionar sobre aquilo que é útil, pragmático, prático, necessário e cabível. Não é mais possível atender a todos aqueles desejos infantis, que agora assumem no sujeito um lugar de desejos inconscientes. Sim, os desejos inconscientes são aqueles desejos remanescentes das primeiras infâncias, que não encontraram forma de se satisfazer na realidade, sendo assim, reprimidos.
O Eu-Prazer é sobre querer, desejar acima de tudo. Trabalhar pela obtenção desse prazer e para evitar o desprazer. O Eu-realidade é a luta pelo que faz sentido na realidade.
Entretanto, seria ilusório acreditar que os desejos infantis sob a primazia do princípio de prazer simplesmente desaparecem no sujeito. Eles continuam a existir e a ditar o comportamento e os sintomas do ser humano. Os sonhos nada mais são do que a realização disfarçada de desejos reprimidos e inconscientes. Encontramos nos sonhos, mesmo que de maneira figurada, a satisfação de nossos desejos. Da mesma maneira podemos pensar no ato de fantasiar, que seria uma modalidade de sonho, porém sob a vigília. As fantasias também permanecem subordinadas ao princípio de prazer. O fantasiar começa nas brincadeiras infantis e se perpetua por toda existência do ser, sendo uma forma de distanciamento da realidade.
A pulsão sexual também sofre grandes transformações a medida que tenta conciliar o prazer com o teste de realidade. No início do desenvolvimento sexual, o sujeito, perverso e polimorfo, busca obter satisfação sexual por suas zonas erógenas. É um prazer, sobretudo, autoerótico. Posteriormente, este prazer encontra outros objetos sexuais, em especial os pais ou cuidadores. Surge o complexo de Édipo, período de grande ambivalência na criança. A realidade, mais uma vez, coloca como ordem o fato de que o sujeito não pode ter o amor dos pais tal como ele quer. Sendo assim, ele é obrigado a encontrar outras vias de satisfação que façam sentido para o real. O desejo é reprimido para o inconsciente, mas não deixa de exercer influência sobre cada escolha afetivo-sexual do sujeito. Ademais, a fantasia exerce papel preponderante nas atividades sexuais, pois é o que aproxima o sujeito o máximo possível da realização de seus verdadeiros desejos. Também podemos pensar em outro direcionamento adquirido pela pulsão sexual: o da procriação.
Por fim, mencionarei outras elaborações de Freud sobre como a sociedade também funciona mediante essa dicotomia entre prazer e realidade. Segundo Freud, o princípio da realidade impõe o abandono de certo prazer momentâneo para um prazer mais seguro. Não seria isso o que fazem a maioria das religiões? Sim, grande parte das religiões determinam em suas doutrinas a renúncia de prazeres terrenos para a vida plena e eterna pós morte. Você abriria mão de diversos prazeres da realidade na esperança e fé de encontrar a satisfação em outro plano para além daqui.
A educação, a arte, a ciência... tudo parece operar sobre esse contraste.
Referências:
Freud, S. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental (1911)
Lucas Henrique Ferreira Alves
CRP04/67750
Insta: psi_lucashfalves
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