Duas pessoas trocando saliva - O beijo enquanto tabu

 


Duas pessoas trocando saliva (2024) é um dos vencedores do Oscar de melhor curta-metragem de 2026. Disponível no Youtube, o filme é uma distopia das mais singulares que me recordo de assistir. 

Apesar de curta-metragem, lembra as obras de Yorgos Lanthimos. Um dos filmes que mais gosto deste diretor é O lagosta (2015), uma distopia em que era obrigatório estar em um relacionamento, encontrar um par romântico, caso contrário, você seria transformado em um animal. 

Em "Duas pessoas trocando saliva", a questão que se sabe é a seguinte: há uma sociedade em que o beijo é proibido. Não apenas proibido, como passível de punição máxima: pena de morte. 

Há duas questões que são bem inerentes àquela sociedade expressa no curta: I- a forma de pagamento não ocorre via dinheiro, cheque, cartões ou Pix. Ocorre através de tapas no rosto. Pegar um táxi, por exemplo, é pago com o cliente recebendo, do motorista, dois tapas no rosto; II- a proibição em relação ao beijo e as formas que as pessoas adotam de tornar o beijo algo repulsivo. 

Em relação ao primeiro ponto, não tenho muito o que considerar a não ser o questionamento: que masoquismo é esse? Seria uma punição ao consumismo? 

Já sobre o segundo ponto é que existem os maiores desdobramentos e reflexões. Sabe-se que o beijo é proibido e que pessoas que são pegas beijando - ou se preparando para isso - são punidas com a morte e descartadas em falsos caixões. Desde o início percebemos algumas pessoas nessas situações. Para tentar se esquivar ou dificultar a realização desse desejo, as pessoas usam artifícios para tornar o hálito algo intragável. Para entrar na loja em que se passa grande parte da narrativa, é preciso que um fiscal cheire o hálito da pessoa para conferir se ele está acre o suficiente para que ela possa entrar. Há um senhor, vizinho da personagem principal Malaise, que disse nunca ter escovado os dentes, estando estes pútridos. 

Malaise acaba, no entanto, se afeiçoando por uma cliente da loja. Angine é uma mulher mais velha, elegante, que está em um casamento aparentemente infeliz. Ela passa a frequentar a loja que Angine trabalha e a garota acaba se tornando sua vendedora principal, a única que a entende. Angine compra e, portanto, é estapeada por Malaise diversas vezes. Mas Malaise quer mais, ela quer o beijo. Ela começa a se preparar para isso, desafiando todas as consequências. 

Essa sociedade distópica me fez pensar algumas coisas: como as construções sociais são altamente singulares e atravessadas pela cultura e como os desejos são reprimidos para se encaixarem nas exigências sociais. 

Naquela sociedade, beijar é proibido. Na nossa cultura, isso é uma ideia estapafurdia, inconcebível. Mas nós estabelecemos que uma série de outras coisas são proibidas. Não é permitido, ou bem visto, se casar com mais de uma pessoa, por exemplo. Não é permitido fazer sexo em público. O sexo, inclusive, é o maior tabu da nossa civilização. Não entrando no mérito do que é certo ou errado, mas esses pontos que mencionei foram histórico e arbitrariamente estabelecidos, tornados prescrições e imperativos culturais, da mesma forma que o beijo foi proibido nessa cultura do filme. 

Freud observou em sua época como as pessoas adoeciam, muitas vezes, por não conseguirem fazer soluções de compromisso com seus desejos inaceitáveis. A mulher era apaixonada pelo cunhado e, após a irmã fazer, adoeceu porque não se permitiu desejar o amor da irmã falecida. Isso fora os inúmeros outros desejos, primitivos e inconscientes que habitam essa área do psiquismo que não temos acesso. No entanto, fazem parte de nós e buscam manifestação. O desejo reprimido sempre busca formas de se expressar e é isso que muitas vezes adoece as pessoas. 

No filme, a sociedade decidiu que beijar é a proibição maior. Nem por isso o beijo deixou de existir. Muitas pessoas pagaram com suas vidas o risco de obter o prazer proibido. 


Lucas Henrique Ferreira Alves

CRP04/67750

Insta: psi_lucashfalves



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