Homenagem a minha Ariel







 

    Dediquei o texto anterior a Ariel. Neste momento que escrevo, sinto as mesmas sensações, arrasadoras e dilacerantes que descrevi em tal escrito. Pensei em fazer tudo em um texto só, mas acabou que o anterior ficou deveras técnico, e, portanto, quis deixar também registrada essa homenagem a minha falecida gatinha. 

    A minha história com a Ariel começa com um clichê. Quem nunca ouviu aquela clássica frase: eu não a escolhi, ela que me escolheu. Pode ser a frase mais clichê no mundo, mas não deixa de ser uma verdade no caso da Ariel. Meus pais, tia e prima, estavam andando pelas estradas rurais de Caetano Preto, quando viram essa querida gatinha. Segundo o que contam, ela foi os seguindo. Vez ou outra, ela corria de cães que ali apareciam para afugenta-la, mas ela sempre retornava na estrada. Desafiou cães ferozes para segui-los. Chegou até a nossa antiga roça, lá nos arredores do Caetano Preto. Eu estava lá, com minha namorada. Nós tínhamos recentemente nos mudado para uma nova casa, em Pará de Minas. Já tínhamos o Billy, meu querido e amado cachorrinho. Queria uma companhia para ele e sempre amei gatos. Foi aí, que minha família começou uma grande pressão para adotarmos a gatinha de pelagem amarela. Ao mesmo tempo, eu estava na dúvida, pois tinha acabado de tentar adotar outro cachorrinho, embora por fatores comportamentais do mesmo, não tenha dado certo. Então, eu estava receoso de adotar outro bichinho, por mais que eu quisesse. 

    Entretanto, partir-me-ia o coração se eu deixasse ela lá na roça, sozinha, faminta. Assim sendo, colocamos ela no carro e tivemos a brilhante ideia de deixar o destino decidir: quando chegou no exato ponto em que ela surgiu para meus familiares, eu abri a porta do carro. É como se eu tivesse dado a ela a seguinte opção: você quer ir conosco ou quer ficar por aqui? Ela quis ficar conosco. Ela não saiu do carro, ficou quietinha no colo da minha namorada. Foi assim que tivemos nosso novo pet. 

    Não sabíamos se era fêmea ou macho, portanto escolhemos um nome neutro: Ariel. Rapidamente, a Ariel se tornou uma amiga inseparável do Billy. Uma das minhas maiores alegrias diárias era chegar em casa, depois do trabalho e encontrar ambos me esperando, deitados no portão. Cada um da sua forma, com seus olhinhos verdadeiros agradecendo pelo meu retorno. A Ariel era a melhor amiga do Billy e o Billy o melhor amigo da Ariel. Eu, considerava-me pai dos dois. 

    Ariel era uma gatinha ambivalente. Parte selvagem, afinal foi criada nas matas do Caetano Preto, parte dócil. Já tive outros três gatos na vida, mas nenhum era tão meigo e dócil quanto a Ariel. Todo dia, ela me via deitado e deitava sobre mim. Se deixasse, ela chegava seu rostinho tão próximo ao meu que ganhava uma porção de beijinhos. Infelizmente, a parte selvagem e obstinada dela, impedia que ela tivesse uma vida inteiramente dentro de casa. Ela fazia suas necessidades muitas vezes fora da caixa de areia e também ficava insistindo a noite inteira para entrar no quarto e dormir com  a gente. Ela ficava o dia inteiro comigo, mas a noite eu tinha que deixar ela no quintal. E, do quintal, ela acessava o telhado. Como eu castrei ela, ela não ia longe, ficava apenas no telhado de casa. Infelizmente, talvez tenha sido isso que culminou no fim dela. 

    Mas antes de chegar na parte mórbida cabem as boas lembranças. Como já disse, um carinho meigo e incondicional. Sempre esperta, atenta e obstinada. Chamava ela de chatinha por isso, pois quando ela queria uma coisa, nada ou ninguém a convencia do contrário. Lembro dela de roupinha após a castração, ficou uma gracinha. Lembro das constantes e diárias brincadeiras dela com o Billy. Isso era tão importante para eles que quando eu ia passear com o Billy, quando regressava eu falava com ele: vamos lá na Ariel, e ele ia correndo. Outra lembrança linda que eu tenho da Ariel, foi um dia que o Billy saiu correndo para rua e eu fui atrás dele, lá embaixo do morro. Quando voltei encontrei a Ariel no meio da rua, como se estivesse nos chamando para voltar. Ela realmente se importava muito com a gente. 

    Eu sempre tentei dar o máximo de amor para ela. Defendia ela sempre, de qualquer acusação. Nunca deixei passar fome ou outra necessidade. Não tinha noção do quanto eu amava ela e do quanto ela faz falta para todos nós. Como disse lá em cima, não fomos nós que a escolhemos, ela nos escolheu quando decidiu ficar com a gente. Ela foi parte viva dessa casa que hoje habito e cada canto que eu olho eu me lembro dela. Quando deito no sofá, lembro dela subindo no meu peito.  Quando chego em casa, lembro dela no portão me esperando. Quando abro a porta de manhãzinha, lembro dela entrando em casa e indo cumprimentar o Billy. Quando mexo com alguma carne, lembro dela ir me pedir um pedacinho. Quando ponho ração para o Billy, lembro de que ela escutava o barulho e ia correndo. Também corria quando eu chamava seu nome. 

    A passagem dela por esse lugar, por este mundo, foi muito breve. Quando a adotei, estimo que ela tivesse cerca de 8 meses. Viveu comigo mais 8 meses. Portanto, acredito que viveu meia vida em cada lugar. Isso me causa até uma reflexão acerca do tempo. Não imaginava, que com uma passagem tão breve ela deixaria uma marca tão grande. É aí que percebo que muito do que vivemos não é sobre o tempo, mas sobre a intensidade. Os 8 meses que a Ariel viveu comigo, parecem ter sido uma vida inteira. Ela deixou sua marca na minha família. Fez parte da pintura da minha vida. 

    O adoecimento dela foi repentino, ardiloso e cruel. Perdeu o apetite, perdeu peso. Depois de três dias, sendo que estava inclusive dando comida a ela através de seringa, levei ela a uma clínica. E a partir daí foram só desgraças. A veterinária me disse que ela estava com Felv. Já tinha ouvido falar dessa doença, mas não tinha conhecimento profundo da gravidade e das formas de transmissão da mesma. Disse-me que era incurável, que podíamos tentar um tratamento de suporte, visando combater os sintomas decorrentes das anemias profundas e imunossupressão, mas que a expectativa de vida era baixa. Ofereceu-me, inclusive, a possibilidade de eutanasiar minha melhor amiga. Não consegui. Preferi pagar os preços astronômicos e absurdos que a clínica cobrava, para ao menos ter a esperança e expectativa de que ela pudesse melhorar, de que pudesse ter um final de vida da forma mais digna possível. Infelizmente, no dia seguinte recebo a fatídica notícia de que ela não resistiu. Não resistiu a essa doença terrível. 

    Meu mundo caiu desde então e eu vivencio o luto da perda de um animal tão querido. Já senti um pouco de tudo, exceto negação. Creio que sou muito apegado as mazelas da realidade para negar a crueldade do mundo. Mas senti e ainda sinto muita tristeza. Uma tristeza que tornou meu mundo cinza, que ressignificou minha casa, meu lar, em agora um ambiente triste, que outrora era tão feliz. Sinto também culpa. Sei que não deveria, mas nesses casos parece inevitável fazer uma série de questionamentos: e se eu soubesse o que era a Felv antes e impedisse ela de ter contato com os gatos daqui da região? E se eu tivesse levado ela a clínica antes, será que ela sobreviveria? E se eu tivesse feito o exame de Felv desde que a adotei? Será que eu dei amor a ela o suficiente? Será que ela se sentia amada, ou sentia que nós amávamos mais o Billy? E se eu não tivesse deixado ela lá na clínica? E se ela tivesse morrido na nossa casa, do nosso lado, e não sozinha, estressada, com medo e agitada? Essas perguntas infelizmente ainda me pairam, e me partem o coração. Sei que vão passar, sei que a medida que a aceitação for ocorrendo, tudo isso ficará para trás. Mas é impossível não se lamentar diante de uma perda tão abrupta, dolorosa, inesperada. Deixou um vazio enorme, maior do que todo Caetano Preto, de onde ela surgiu. 

    Ainda na linha das dúvidas, uma dúvida primordial não deixou de pairar: e se ela tivesse ficado em Caetano Preto? Teria morrido antes? Estaria viva? Teria Felv? Será que foi lá que ela pegou essa maldita doença? Essas perguntas são apenas tentativas da minha mente de fantasiar sobre cenários em que a realidade não fosse tão dolorosa quanto de fato é. 

    Por fim, expressa minhas homenagens e meus sentimentos conflitantes, ainda não sei como responder a pergunta que fiz no texto anterior, sobre adotar ou não outro animal. No meu caso, existe o fator Billy. Billy é um cão que ama outros animais, especialmente gatos. Seria interessante e muito válido se eu adotasse outro companheiro para ele. Mas a Felv me trouxe um receio enorme. Não quero correr o risco de adotar outro gato e conviver com essa doença novamente. Essa terrível doença. Onde moro é difícil de impedir totalmente o acesso do gato a sair da casa. Mesmo a Ariel, que saía tão pouco, vez ou outra tinha contato com outros gatos da região. Não posso correr esse risco. Quanto ao meu processo de luto, sinto que elaborarei bem. Nunca esquecerei da meiga e amável gatinha amarela de Caetano Preto. Fez e sempre fará parte da nossa família. Há diversas fotos que eternizam ela a esse lugar que vivo e sempre que eu me lembrar desse lugar, inevitavelmente, me lembrarei dela. 

    Descanse em paz, Ariel. Pelo menos você não está sofrendo mais. Te amo, eternamente. 


Lucas Henrique Ferreira Alves - CRP04/66750

Instagram: @psi_lucashfalves

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