A pintura da vida
Hoje vou falar um pouco de reflexões geradas a partir do quinto episódio, da primeira temporada, da série This is us, ao mesmo tempo que relaciono tais contemplações com minha própria história de vida. Bom, quanto a This is us, posso dizer que a renomada série, que contém 6 temporadas, já gera grande impacto e considerações desde o seu início. E o que posso dizer sobre minha história de vida? Que é uma história simples e complexa, como a de todos nós.
Na série, Kevin, ao jantar com suas sobrinhas, foi confrontado pelas garotas sobre o que é a morte. Da parte das garotas, isso evidencia um pouco da curiosidade infantil, inclusive por este tema que é uma das grandes questões humanas. A pergunta “o que é a morte”? “O que acontece ao morrer”? É uma das grandes perguntas que permeiam a existência. Um questionamento, atravessado por uma certa angústia que está presente desde as experiências infantis, quando começam a se questionar sobre as nuances da vida.
A princípio, Kevin responde de uma maneira direta o que para ele é a morte. Ele dá a entender que é um fim, em direção a uma inexistência eterna. As suas sobrinhas, quando escutam tal definição, ficam sem reação, como se tivessem sido invadidas por uma cruel realidade. Afinal, é difícil uma criança, tão cheia de vida, expectativas e sonhos, conceber que um dia morrerá. Kevin percebe a delicadeza do assunto que está tratando, e tenta corrigir sua fala, mas parece se atrapalhar cada vez mais.
A pergunta das crianças certamente tocou Kevin, a ponto de ele, mais tarde, fazer toda uma elaboração sobre vida e morte. E é aqui que entra um dos monólogos mais sensacionais que já presenciei em uma série. O monólogo da pintura da vida.
“Então, pintei isso, pois acho que a peça é sobre a vida, sabe? E a vida é cheia de cores e cada um vem e adiciona mais cor à pintura. Mesmo que não seja muito grande, a pintura, vocês veem que continua para sempre. Em cada direção. Tipo, para o infinito, sabem? Porque a vida é meio assim, certo? É muito louco se pensar que um cara que eu nunca conheci, veio para esse país apenas com uma mala. Ele teve um filho, que teve um filho, que me teve. E enquanto eu pintava, pensei, talvez essa seja a parte dele e aqui embaixo seja a minha parte da pintura. E então eu comecei a pensar: e se todos nós estivermos na pintura toda? E se estávamos na pintura antes de nascer? E se estivermos nela depois de morrer? E se essas cores que continuamos adicionando, ficarem uma em cima da outra até que um dia não seremos mais cores diferentes? Seremos uma coisa só. Uma pintura. Meu pai, não está mais entre a gente, ele não está vivo, mas está com a gente. Ele está comigo todos os dias. Tudo se encaixa de alguma forma e mesmo que vocês não entendam ainda, as pessoas que amamos morrerão em nossas vidas. No futuro, talvez amanhã, talvez daqui a alguns anos… É bem bonito, se for pensar que só porque alguém morre, só porque não pode mais vê-los ou falar com eles, não significa que não estão na pintura. Acho que esse é o intuito da coisa… Não existe morte. Não tem você, ou eu ou eles. Somos só nós. E essa coisa confusa, selvagem, colorida e mágica que não tem começo e nem fim. Isto, bem aqui, acho que somos nós.”
Direi sobre reflexões acerca de minha própria vida para discorrer melhor sobre essas ideias, ao mesmo tempo que conecto minha história de vida com a do personagem Kevin. Parafraseando-o, é muito louco pensar que pessoas que eu nunca conheci foram tão importantes na minha história. Algumas, inclusive eu conheci, mas foram embora cedo demais.
Minha avó materna está nas minhas memórias infantis. Na verdade, creio que minhas primeiras memórias são justamente sobre ela. Eu tinha três anos de idade quando ela faleceu. Mesmo assim, tenho uma memória que me gera conforto. Lembro de estar na casa dela e de ela me pegar no colo. Minha família toda relata o indescritível amor que ela tinha por mim. Talvez tenha sido justamente esse amor que a manteve viva em minhas memórias tão pueris.
No meu aniversário, deste ano, minha tia, filha dessa minha avó falecida, me deu de presente uma mudinha de rosa, como representação de amor familiar. Essa rosa, pertencia a minha avó falecida. Quando minha tia se casou e mudou de casa, ela levou consigo uma mudinha dessa rosa. E agora, tendo em vista que também passei por uma mudança recente de lar, ela me deu uma muda dessa mesma rosa. Disse que podemos aprender muito com uma simples muda de roseira. Que ela é persistente, que sabe se defender com seus espinhos, mas que não perde a beleza que enaltece os olhos e que aquece o coração. As raízes da rosa são fortes e são a base para toda sua vida, disse minha querida tia. Ela também disse que as minhas raízes também são muito fortes, como a rosa que era de minha avó.
Essa dádiva dada por minha tia, fez-me refletir como pessoas que há muitos anos não estão presentes em nossa vida foram tão importantes em nossa história. Essa avó, cujo conservo minhas primeiras memórias, com certeza teve grande influência em minha vida, bem como a mãe dela, e a mãe da mãe dela e assim por diante. O pai de Kevin não está mais fisicamente com ele. Mas a presença, a essência dele se faz presente todos os dias. Minha avó, não está mais presente conosco há muitos anos. Mas há em mim toda uma constituição que passa também por aquele amor que ela me deu. É como se todos nós estivéssemos adicionando mais cores a esta pintura da vida. Ou mais pétalas.
Se Kevin percebeu a interconectividade da vida através da simbólica via da pintura, eu percebi o mesmo, porém através de uma muda de roseira. Nossa vida não tem começo e nem fim pois tudo está eternamente interligado e influenciando tudo ao nosso redor.
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