A caça


   

 Esse escrito surge como uma espécie de continuidade de um outro que já esteve em evidência aqui no site. O texto que escrevi denominado "um erro não define quem você é", propunha reflexões sobre o linchamento virtual, o cancelamento, a estigmatização do outro. Esse assunto segue cada vez mais em evidência nos tempos atuais, no entanto, conforme comentei no escrito mencionado, este é um tema que sempre esteve presente, acompanhando a vida da espécie humana. 

    Em concordância com essa afirmação, existe este filme, lançado há mais de uma década: "A caça". Filme dinamarquês, lançado em 2013, que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro. O longa metragem traz, em um contexto agoniante, a representação de uma sociedade reacionária, vingativa e que se suporta com o pretexto da justiça. 

    O personagem principal da obra é Lucas, interpretado de forma excelente por Mads Mikkelsen. Lucas é um homem divorciado que trabalha em uma escolinha, estando, portando, em contato direto com crianças diariamente. Lucas tem uma relação muito próxima com a família de Theo, seu melhor amigo. Theo, tem uma filha chama Klara, que estuda na escola na qual Lucas trabalha. Lucas e Klara, por sua vez, tem uma relação relativamente próxima. A garota apresenta alguns traços obsessivos, como o fato de não poder pisar nas linhas do piso. Ademais, é descrita como uma criança de imaginação bem fértil. 

    Ocorrem alguns eventos no filme, que proporcionam um efeito em cascata. A criança, Klara, tem contato através do irmão, com um material pornográfico. Rente a este evento, também houve um desentendimento entre Klara e Lucas, envolvendo uma carta que a garota teria escrito para ele, além de um beijo que ela lhe dá na boca. 

    Desde Freud, em os "Três ensaios sobre sexualidade", há um entendimento, em especial pela psicanálise, de que as crianças não são seres assexuais ou dotados da mais extrema pureza. A sexualidade humana já se expressa desde a mais tenra infância, por meio de desejos, fantasias ou comportamentos. O que percebemos em Klara, nessa cena do beijo, nada mais é que a expressão de sua sexualidade. Podemos pensar em Lucas como um representante da figura masculina que se aproximaria do amor de Klara por seu pai, pensando em um contexto edípico. Não é essa a discussão principal que quero trazer neste escrito, entretanto, cabe a pontuação. Quanto a Lucas, ele não fez absolutamente nada de anômalo nessa cena, tendo inclusive reprimido a garota, castrando a fantasia e desejo da criança. 

    A partir de então, inicia-se a desgraça na vida de Lucas. Klara conta para a diretora, Grethe, que não gosta de Lucas, "que ele teria pipi e que apontaria esse pipi para cima". Essa fala da criança está contaminada pelo material adulto que ela viu quando seu irmão e o amigo dele a mostrou. Ao dizer isso, Grethe ficou confusa. Em um primeiro momento, não há nada a se julgar da atitude tomada pela diretora. O relato de uma criança tem valor, isso não é contestável. Portanto, ela começou a tentar entender o acontecimento. 

    Porém, a partir disso, tudo foi conduzido de uma maneira trágica. Tanto a diretora quanto outras pessoas tomaram atitudes bastante infundadas e passíveis dos mais variados erros. Em um primeiro momento, a diretora chamou um homem para conversar com Klara e tentar pedir a ela que repetisse sua versão. Klara estava confusa, tentou negar o que havia dito. No entanto, a abordagem do homem foi determinante para toda narrativa do filme. 

    A abordagem dele é sugestionável, isto é, ele sugere para a criança o que poderia ter acontecido. Isso é um erro grave em abordagens policiais, investigativas ou judiciais. Esse fenômeno foi percebido e estudado inúmeras vezes nesses contextos, sendo Elizabeth Loftus uma das principais pesquisadoras da área. A conclusão, respaldada inclusive por tudo que sabe hoje em dia sobre a memória e demais processos cognitivos, é que tanto a memória quanto a imaginação são sugestionáveis. 

    Loftus descobriu, através do trabalho em processos legais e com testemunhas oculares que a maneira como uma questão é formulada pode alterar a lembrança, fantasia ou percepção de uma pessoa sobre determinado evento. Foi isso que ocorreu com Klara a partir do momento que ela criou sua narrativa e teve a mesma reforçada por uma série de pessoas ao seu redor. Criaram-se pressuposições falsas sobre um acontecimento inexistente. 

    Cabe pontuar, entretanto, que o filme aborda duas questões interessantes e consideráveis para justificar essa situação. Uma delas é o estado de confusão que uma vítima de abuso vivencia. Quando uma criança é abusada sexualmente, ela não tem um entendimento daquilo que vivenciou. Uma série de mecanismos de defesa da mente são acionados para tentar livrar a criança da experiência traumática e angustiante que ela não tem capacidade de compreender. A negação e a repressão são dois elementos recorrentes nessas vivências. A criança pode negar aquilo por vergonha, nojo ou pela simples incompreensão. Ela pode também, reprimir aquele acontecimento por não conseguir lidar com a violência invasiva intrínseca a situação. O outro ponto é que, de forma recorrente, as personagens do filme trazem a ideia de que "as crianças não mentem", de que não há motivo para se duvidar da versão que a criança está trazendo. A consideração de que crianças não mentem parte de um pressuposto antigo e idealizado sobre a pureza infantil. Já a questão de que não há motivo para se duvidar da versão da criança, deve ser vista com extrema cautela, pois definitivamente não é prudente a ninguém desmentir ou deslegitimar um relato de uma criança, ainda mais nesses contextos de violência. Ainda assim, é preciso uma investigação eficaz para isolar a criança de um possível agressor, mas sem tomar conclusões precipitadas que podem ser injustas. 

    E é uma condução injusta e precipitada que sentenciou Lucas a ser uma caça da sociedade a qual pertencia. Rapidamente, as pessoas foram tirando suas conclusões de que Lucas era de fato um abusador. Poucos se permitiam o benefício da dúvida. A situação foi tratada de forma mais errônea ainda pela diretora da escola, quando ela sugeriu aos pais que observassem se as crianças da escola estariam tendo pesadelos ou enxaqueca, sendo estes sintomas de potenciais abusos. Quando os pais notaram isso em seus filhos, surgiu um fenômeno ainda mais complicador para Lucas, pois parecia haver um contágio do relato. Diversas crianças apareceram com narrativas de que Lucas teria também as abusado. 

    Esse fenômeno de "contaminação de narrativa" também está coerente com os estudos de Elizabeth Loftus, que percebeu como é possível e relativamente comum as "memórias implantadas por meio de sugestão". Sendo as memórias sugestionáveis, mutáveis e maleáveis, é possível sim que pessoas lembrem de situações inautênticas e inexistentes. 

    Lucas foi conduzido a prisão e quase condenado. A justiça, todavia, precipita-se menos do que as pessoas comuns. Nas investigações, perceberam que os relatos da maioria dos alunos eram infundados, pois eles descreviam um porão que se quer existia. Provavelmente perceberam como havia um elemento fantasioso que circulou por meio da linguagem perpetrando as memórias das pessoas e produzindo imagens mentais que nunca de fato existiram. 

    Se perante a lei Lucas era inocente, no seu convívio social Lucas jamais foi. Pelo menos não por completo. Poucos foram aqueles que ficaram desde o princípio ao seu lado. A maioria, realizou o desejo sádico inerente ao humano: o linchamento travestido de justiça. A justiça que confunde-se com vingança. Agredido, isolado, recriminado, linchado. Cancelado. 

    Lucas se tornou uma eterna caça. Para o resto de sua vida, teria que lidar com uma mancha, com um fantasma de algo que ele jamais fez. No desenrolar da obra, Lucas consegue se reintegrar a sociedade. Pessoas que o agrediram e o julgaram passaram a ver sua inocência. Outras, como representado brilhantemente na cena final, jamais deixaram de vê-lo um monstro. Como alguém digno de ser caçado. 

    Em suma, ressalto a reflexão final do filme e desse escrito. Abusos sexuais são reais e infelizmente acontecem com uma frequência avassaladora. Também de caráter avassalador são os efeitos psicológicos deixados em suas vítimas. Qualquer denúncia de abuso deve ser levada a sério, ouvida, escutada. O que deve ser revisto, na sociedade como um todo, é esse desejo sádico punitivista, principalmente quando ele está precipitado inclusive sobre o acontecimento em si. Para tantos abusos sexuais reais, há também aqueles que foram fantasiados, inventados, seja inocentemente, como no caso de Klara, ou não. O que determina o caso de cada um são as investigações e a Lei. Não seria prudente evitar de caçar uma pessoa antes de tudo estar devidamente esclarecido? Você é realmente o dono da verdade ou quer apenas exteriorizar de maneira reativa seus desejos inclementes?


Lucas Henrique Ferreira Alves - CRP04/67750

Instagram: @psi_lucashfalves

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