Um erro não define quem você é

Reflexões sobre a cultura do cancelamento



É mais do que comum hoje ouvir que estamos vivendo a época do “cancelamento”. Cancelar uma pessoa, significa praticar uma série de ações e julgamentos que funcionem de maneira excludente ou punitiva a uma pessoa que cometeu, ou foi acusada de cometer, um erro. 

        O cancelamento não é uma novidade dos tempos atuais. Sempre existiu no ser humano um ímpeto em julgar e punir aquilo que foi praticado erroneamente ou aquilo que ele não concorda. E é importante diferenciar essas duas questões. Quando uma pessoa comete um erro, um erro grave ou um crime, certamente isso deve resultar em algum tipo de consequência. Ela assume, ao cometê-lo, a responsabilidade pelo ato cometido. No entanto, o cancelamento opera para além disso. Sempre foi frequente cancelar pessoas por terem opiniões divergentes. Opiniões que fugiam da norma. Mulheres que fugiam da norma eram queimadas na Idade Média por serem consideradas bruxas. Giordano Bruno foi um místico visionário que foi queimado numa fogueira em consequência da sua forma de ser. Milhares de pessoas portadoras de transtornos mentais foram completamente anuladas, excluídas ou encarceradas ao longo da história, apenas por não compartilharem de uma realidade coletiva. Ou seja, sempre existiu no ser humano um imperativo de anular, extinguir ou cancelar o diferente. 

Atualmente, entretanto, com a difusão das tecnologias de informação, o cancelamento passa a operar de outras maneiras. Surgiu uma legião inacabável de justiceiros, bastiões da moralidade, que erigiram a nova faceta da cultura do cancelamento. Bom, em se tratando de justiceiros, isso também não é uma novidade. Eles sempre existiram. Justiceiros são pessoas que decidem agir à margem da lei, fazendo “justiça” por conta própria. Uma justiça travestida de vingança, raiva, desprezo, nojo e ódio. As ações dos justiceiros clássicos, geralmente ocorriam por meio de violência com espancamentos, tortura e morte. Embora isso não esteja extinto no mundo atual, a forma como os justiceiros virtuais operam é distinta. O cancelamento virtual ocorre pela via do julgamento verbal de atitudes. Uma pessoa tem uma opinião divergente e é ofendida por ter tido tal opinião. Uma pessoa comete um erro, um erro grave ou um crime e é linchada virtualmente, boicotada. Muitas vezes até mesmo a vida profissional do sujeito é completamente abalada. O cancelador não cancela para ensinar, educar, reeducar e ressocializar, mas sim para punir, aniquilar, destruir a reputação. Assim ele adquire sua satisfação sádica, que se apresenta em forma de “justiça”. 

Como já deve ter ficado evidente, estou tratando aqui de duas facetas do cancelamento atual. A primeira, e completamente banal, é o cancelamento de opinião. A pessoa não tem o direito de expressar uma opinião dissonante da maioria. Uma pessoa pode ser julgada e afastada por dizer que é ideologicamente de direita em um ambiente predominado pela esquerda. Ou o contrário. Isso retoma os comportamentos arcaicos já mencionados, que resultaram na morte de pessoas por pensarem de forma diferente. Isso ilustra a incapacidade humana, prematura, pueril e narcisista de não conseguir lidar com uma opinião contrária. 

Concordo plenamente que há limites na liberdade de expressão. Você não pode falar que é favor da criação de um Partido Nazista no Brasil, como fez o Youtuber Monark, e achar que isso está dentro da sua liberdade. A liberdade de expressão encontra vários limites, sendo o principal deles a Lei. E é aí que entra a segunda faceta do cancelamento moderno. E essa envolve uma discussão que a maioria das pessoas não está preparada, justamente pelo fato de que a maioria já foi absorvida pela onda do linchamento virtual. Descreverei sobre esse segundo aspecto, com base em acontecimentos recentes, ocorridos no Big Brother Brasil no dia 16 de março de 2023. 

A direção do programa optou por expulsar os participantes Mc Guimê e Antônio “Cara de Sapato”. Nada contra essa decisão. O ponto nem é esse. Mc Guimê e Cara de Sapato foram acusados de cometerem “importunação sexual”. Isso é o que popularmente as pessoas chamam de assédio, mas em termos legítimos se chama importunação sexual, que é definida como práticas, comportamentos ou atos libidinosos que tenham como finalidade satisfazer o desejo sexual, tais como: lamber, tocar, apalpar, desnudar, masturbar-se em público, entre outros. As imagens transmitidas pela emissora foram claras e poucas pessoas saíram em defesa dos dois participantes. A grande maioria achou justa a expulsão. E realmente foi. O programa, assim como a sociedade, é regido por regras, regras intransponíveis e invioláveis, e quando essas regras são rompidas deve haver consequências. A consequência até o momento foi a expulsão, e possivelmente pode ocorrer algo maior, visto que a Polícia Civil do Rio de Janeiro abriu inquérito para investigar os acontecimentos. 

Mas as consequências não param por aí. Esse caso apenas ilustra o que eu quero transmitir com este escrito. Mc Guimê e Cara de Sapato carregarão para o resto da vida o peso de terem sido cancelados por milhões de pessoas. O Twitter, talvez o maior tribunal da internet em atividade, está em festa com o assassinato de reputação dos dois sujeitos. O caso deles apenas representa o que sempre acontece. Diariamente milhares de pessoas são canceladas por seus atos, opiniões, erros ou crimes. E você deve estar me perguntando, mas não devemos realmente cancelar quem pratica ou é investigado por um crime? Eu te refaço a pergunta, devemos?

Um dos princípios básicos da lei é o de que o infrator deve pagar pelo que cometeu. Quando se tratam de crimes mais graves, esse pagamento ocorre pela via da reclusão. Há uma série de problemas na forma como funciona o sistema carcerário, mas os objetivos são: vigiar, punir (neste caso com a reclusão) e se possível ressocializar. A ressocialização é a palavra chave que não existe no vocabulário dos canceladores. As pessoas são escrachadas, execradas e estigmatizadas pelo resto de suas vidas. O sonho dos canceladores é que essas pessoas vivam o resto de suas vidas infelizes ou sejam de fato aniquiladas, enquanto a esperança de uma sociedade funcional deveria ser que, essas pessoas, aprendam com seus erros e jamais tornem a cometê-los. 

Mas como explicar um cancelador? O que ele tem de diferente daquele que foi cancelado? Muitas vezes não existem diferenças gritantes. Todos nós não somos constituídos por uma única parte, por uma essência moral graciosa. Dentro de nós há pulsões, desejos, desejos proibidos, tabus, pensamentos insustentáveis, impulsos sádicos e hostis. Algumas pessoas permitem a expressão desses conteúdos inconscientes, outras fazem o possível para reprimi-los e lidar com eles. Todos nós crescemos cometendo erros. Alguns cometeram erros mais graves do que os outros. Mas aqui surge a epígrafe deste escrito: um erro não define quem você é. O Mc Guimê e o Cara de Sapato serão taxados e estigmatizados por anos como assediadores ou abusadores. Mas eles não são apenas isso. Numa sociedade funcional eles não deveriam ser estigmatizados assim. Deveriam ser postos a refletir sobre seus atos, tomar responsabilidade sobre eles, entendê-los. Pagar pelo que fizeram em termos da Lei. Mas não julgados eternamente por pessoas que se acham puras e perfeitas. 

A atitude maior dos canceladores talvez seja definir o ser humano, que é esse conjunto extremamente complexo, constituído por desejos, angústias, sonhos, afetos, fantasias e projeções, como algo simples, raso e maniqueísta. Se você errou, você é mau. Se você nunca errou, você é bom. No entanto, não existe alguém que nunca tenha errado. Por isso, o cancelador apenas aponta no outro as contradições que existem nele mesmo. E todos nós temos contradições. Por isso, ao invés de apontar o dedo sempre na cara do outro, pense se você não está apenas depositando suas contradições e frustrações em cima dele, de forma estigmatizante, definindo-o por um único erro ou ato, reduzindo o ser humano a uma simples e equivocada representação do bem ou do mal.


Lucas Henrique Ferreira Alves - CRP-04/67750

Instagram: @psi_lucashfalves


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