Entre o passado e o futuro
Já ouvi diversas pessoas, ao tentarem reduzir ou explicar Ansiedade e Depressão de uma forma simples, dizerem que a primeira é um excesso de futuro e a segunda, um excesso de passado. Isso quer dizer que uma pessoa ansiosa viveria no futuro, antecipando cenários, situações e até mesmo sofrimentos, enquanto o depressivo viveria preso em algo que já passou e que nunca foi bem superado.
Essa explicação é, obviamente, reducionista. Entretanto, há, como em grande parte de jargões, ditos populares ou simplificações de conteúdo, uma verdade. E é isso que eu gostaria de comentar a partir de dois pontos que se ligam a uma perspectiva em comum. De fato, vivemos entre o passado e o futuro, com uma grande dificuldade de se ater ao presente momento. É um desafio para o ser humano, seja ansioso ou depressivo, viver o aqui-agora.
Passamos a vida relembrando o passado. Seja em nossa memória, seja em nosso discurso, seja em nosso comportamento, o passado está sempre presente. A infância, como diria Freud, é o chão que pisamos por toda a vida. Acontecimentos passados são rememorados com frequência, principalmente a depender da afetividade ou intensidade da experiência. Em outras palavras, a depender do quanto aquilo marcou. Além de passar a vida relembrando, recriando esse passado, nós estamos o tempo inteiro apegados a certos discursos e narrativas. Um paciente, certa vez, ilustrou muito bem isso que estou dizendo: "passamos a vida repetindo assuntos e vivências, até encontrar um sentido". Essa foi uma colocação muito assertiva: passamos a vida revivendo um passado e construindo, sobre ele, uma narrativa que nos dê sentido de vida. Quando isso escapa da nossa capacidade de discorrer sobre, de ressignificá-lo e de lidar com ele, nós adoecemos. Nós somos invadidos por um passado que não passa.
O outro lado do ser humano tenta equilibrar essa balança. Ou pesá-la demais em sentido oposto. Nós vivemos uma tendência ao futuro. Houve um psicólogo americano, chamado George Kelly, que se dedicou a estudos nessa linha. Segundo Kelly, em sua Teoria dos Construtos Pessoais, nós agimos como cientistas, criando ideias, cenários, situações e pensamentos para entender e prever aspectos de vida. Nós antecipamos situações como uma tentativa de sobressair às adversidades e imprevisibilidades de uma realidade complexa, que escapa da nossa capacidade de compreensão total. É como buscássemos entender o máximo possível e isso de fato favorece a nossa sobrevivência. No entanto, isso acabou se tornando também uma armadilha que nos afasta da nossa própria realidade presente. Há pessoas que perderam o controle dos pensamentos e construiriam projeções imaginárias que jamais acontecerão. Ainda assim, sofrem com as angústias que envolvem essas ideias.
Passamos a vida revivendo o passado e projetando cenários de futuro. É uma forma simples e real de pensarmos na condição humana. E que nos desafia a buscar, da melhor maneira possível, não deixar de viver o momento presente. É sobre conseguir de fato falar e ressignificar o passado e colocar contenções a esse impulso de viver nas ideias futuras. São formas desafiadoras de encontrar um equilíbrio diante o absurdo da existência humana.
Lucas Alves
CPR04/67750
Insta: @psi_lucashfalves
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