Os cantores - a música enquanto afeto

 


 Singers (2025) é um dos vencedores do prêmio do Oscar de melhor curta-metragem de 2026. 

Filmes curta-metragem são os patinhos feios do cinema, quase ninguém conhece. Eu quis iniciar esse projeto novo, de ver mais curtas e escrever sobre eles, afinal, eles também trazem grandes conteúdos e reflexões. Pretendo iniciar de trás pra frente, assistindo as obras que figuraram no Oscar dos últimos anos.

Começando por este, que é uma produção da Netflix e que acabou premiado como melhor curta. 

O filme se passa em um bar, em uma noite de inverno. As câmeras focam na expressão dos sujeitos que habitam aquele espaço. Botecos, bares de uma maneira geral, são ambientes bem peculiares. Reúnem uma diversidade de sujeitos e de histórias que muitas vezes não são contadas. Entre uma bebida e outra as palavras saem. Ora como lamúrias, ora como histórias, ora como pilhérias. Discursos se atravessam e ajudam a constituir aquele lugar. 

O discurso do bêbado é mais flexível, suas defesas psíquicas estão mais afrouxadas. A frase "o álcool entra e a verdade sai" não é absurda, há verdade nela também. Às vezes o discurso do bêbado se quer é compreendido, seu jogo de palavras foge da realidade que é compartilhada pelos demais falantes. Mas entre bêbados parece haver um maior entendimento. 

Outro ponto que ajuda a constituir a atmosfera daquele bar e de muitos outros da vida real é um aspecto melancólico. Sim, há uma melancolia naqueles sujeitos, um "não sei o quê" meio lúgubre, meio perturbador. Provavelmente resultado de desilusões com a vida, perdas, lutos, traumas. Conflitos existenciais básicos. 

No filme, o inverno frio ajudou a tornar aquele ambiente ainda mais lúgubre e as pessoas ali dentro parecem infelizes. A forma que encontram de sentir um brilho na escuridão? A música. As canções surgem como uma brincadeira, um desafio. Um senhor, que cantou por anos naquele bar é desafiado por um desconhecido. O senhor, mesmo doente, não se furta da responsabilidade. Ele aceita e faz bonito. O desafiante responde e o efeito da música é generalizado. Música é arte e, além de arte, é uma forma de manter a fagulha de vida acesa. Em meio a tantas histórias tristes, a música dá vazão ao que é angustiante. 

Lucas Henrique Ferreira Alves

CRP04/67750

Insta: psi_lucashfalves



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