O monstro em mim
"Não sou o único com isso dentro de mim, não sou. Porque temos olhos e dentes afiados. Somos predadores. Transamos, caçamos, matamos, cagamos e gostamos disso. Todos nós".
The beast in me (2025) é uma série norte-americana muito interessante. Disponível na Netflix, a série me gerou muitas reflexões e é um prato feito para quem gosta de psicologia e psicanálise.
A história acompanha Aggie Wiggs, uma escritora famosa que, após a morte de seu filho, vitimado em um acidente de carro, tornou-se uma mulher amarga e paralisada profissionalmente. Ela, de forma inesperada, acaba recebendo na vizinhança uma figura muito complexa na sociedade estadounidense, Nile Jarvis, um multimilionário, dono de um império, porém, com uma história de vida bem complexa. Nile se tornou centro de um grande mistério envolvendo sua ex-esposa, Madison Jarvis, que morreu em uma circunstância suspeita. Para grande parte da população, Nile teria sido o assassino de Madison, enquanto a realidade parecia concluir se tratar de um suicídio.
Aggie e Nile são as duas figuras centrais da trama. Ambos tem uma história de vida marcada pela tragédia. Aggie perdeu seu filho em um acidente de carro, em que ela dirigia o automóvel. No fundo, sempre sentiu uma grande culpa em decorrência disso e a forma como deu vazão a essa culpa foi através de uma projeção no indivíduo que conduzia o carro que colidiu com eles. Era um sujeito adicto, cheio de problemas e foi, portanto, um alvo fácil para Aggie direcionar todos os seus sentimentos hostis. A trama descreve que Aggie atormentou o rapaz por anos. Em sua vida pessoal, Aggie perdeu seu relacionamento e seu sentido de vida.
A história constrói uma narrativa que aproxima, em uma ambivalência de vários sentimentos, com repulsa, curiosidade, compreensão, Aggie de Nile. Ela quer saber se Nile é a pessoa horrível que muitos dizem ser, mas ao mesmo tempo se depara com uma realidade em que há um sujeito complexo, cheio de contradições, demasiadamente humano. A narrativa se desdobra em cima de uma premissa fundamental: Aggie e Nile são semelhantes? Eles são iguais?
Em um momento de confronto, Aggie diz a Nile que não, eles não são iguais. Concordo com isso, mas primeiro quero expressar as semelhanças entre eles. Aggie e Nile são humanos a ponto de conviver com impulsos e afetos dos mais hostis possíveis. Eles lidam - ou foram obrigados a lidar - com o suprassumo dos impulsos inconscientes, que são essa parte de nós, animalesca, hostil, que nós não nos orgulhamos. Mas é uma parte que existe em cada um nós. Talvez esse seja o monstro em mim que aproxima Aggie de Nile. Este, segundo descreve a família, sempre foi alguém que conviveu com uma hostilidade que nunca controlou. Já Aggie, tornou a vingança parte de seu luto, realizou desejos horríveis demais para serem nomeados.
De acordo com as contribuições psicanalíticas, não há nada de anormal nisso, por mais que as vezes choque algumas pessoas. Às vezes, deparo-me com pacientes que dizem sobre desejos horríveis que sentem, autorrecriminam-se, julgam-se, custam dizer sobre aquilo. Custam, porque na sociedade há uma moralidade que faz parte do pacto civilizatório, que é muito atravessada pela moral religiosa e que não admite a parte monstruosa que há no ser humano. Era horrível demais para Aggie admitir o que ela sentia, já Nile, entendeu isso como algo trivial, como parte de si.
É aí que existem as grandes diferenças entre os protagonistas. Ambos são marcados por desejos hostis, mas o que eles fazem com isso é diferente. Nile incorpora, de fato, uma besta por diversas vezes. Ele age como um predador racional que elimina quem está em seu caminho. Já Aggie, agiu de forma inconsciente a maior parte de sua história recente. É como se Aggie representasse a maior parte dos seres humanos, enquanto Nile representasse aqueles que são os verdadeiros criminosos, aqueles que excluíram o pacto civilizacional da sua consciência, aqueles que fizeram da violência uma parte de sua conduta. Há uma frase marcante, que é bem vista no meu entendimento, que diz que não importa o que você pensa, importa o que você faz. Aggie transformou sua hostilidade, seus pensamentos, em algo que cabia numa vida social. Nile, transformou sua hostilidade em assassinato. Eis o que divide os dois.
Lucas Alves
CRP04/67750
Insta: @psi_lucashfalves
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