A suspensão da crença

 


    A morte sempre foi um fenômeno de interesse para a filosofia, psicologia e a psicanálise. É um dos grandes sofrimentos e dilemas existenciais do ser humano, que é um ser para a morte. Não apenas nós, mas todo ser que habita ou já habitou esse planeta teve esta mesma sina. Ocorre que grande parte desses seres não se deram conta, não pensaram, não refletiram sobre esse acontecimento ao longo de sua trajetória. Nós que somos os seres, conscientes, que sabemos o que é a morte. 

    Freud e diversos outros pensadores ao longo da história construíram uma narrativa de que nós construímos mecanismos de defesa, ao longo de nossa trajetória, para lidar com a morte. Foi o que Ernest Becker desenvolve, por exemplo, em sua obra prima "A Negação da Morte". Os desenvolvimentos de Freud sobre a morte geralmente consistiam no apontamento de que o ser humano criou deuses, espíritos e religiões para conseguir lidar com a angústia da morte. No inconsciente, não existe morte, existe um desejo infinito de obter prazer e, por a morte ser a finalização completa do prazer, ela não é considerada no inconsciente. É daí que vem aqueles jargões clássicos: "vivemos como se nunca fossemos morrer". Ora, de fato é assim em nosso aparelho psíquico. 

    Para os existencialistas, o ser humano lida com uma angústia de morte que atravessa toda a sua experiência subjetiva. Pensar demais nisso, seria mergulhar ainda mais nessa angústia. 

    Já para as religiões, a morte é uma passagem para outro plano. Nosso corpo deixa de existir, mas o espírito continua, criando assim uma existência que é infinita. As religiões prometem que essa vida de dor e sofrimento na Terra é uma provação, um processo de evolução para atingir um estado de prazer, paz e sabedoria atemporal. Freud analisava isso como pueril. Seria como uma criança que não aceita dormir, não aceitar a escuridão e, para isso, tem que criar a fantasia de um mundo perfeito. 

    Feita essa introdução, venho pensandoem um fenômeno que parece desafiar alguns conceitos religiosos e demonstrar uma contradição que carece de estudos e reflexões: o fenômeno do suicídio para o religioso.

    A psicanálise possui um conceito, chamado pulsão de morte que implicaria, a grosso modo, na ideia de que, em algum nível, todo ser deseja voltar para o inorgânico. Isso quer dizer que existe em cada sujeito uma tendência de se confortar perante a morte, visto que, enquanto o sujeito não existia, não havia sofrimento. Ao existir, somos colocados à prova de um mundo que faz sofrer. Isso, produz no sujeito, em contradição com uma pulsão de vida, em contradição com uma angústia perante a morte, um desejo de deixar de existir. 

    Ok, esse é o pensamento da psicanálise, uma linha de estudos laica, que independe de religião, que trata do psiquismo humano em uma visão estrutural. Mas e o religioso, como pensa na morte e no suicídio? 

    Na morte, como já mencionado, como um processo de libertação de uma realidade sofrível, para algo que recompensaria todos os pecadores. No suicídio, na maioria das vezes, o religioso enxerga um pecado grave. "Somente Deus pode tirar a vida de uma pessoa, a vida que ele mesmo deu". 

    Entretanto, a contradição começa a se estabelecer a partir do momento que percebemos um aumento coletivo de transtornos mentais e autoextermínios em diversos países do mundo, inclusive em países de maioria religiosa, como o Brasil. Pessoas religiosas também estão adoecendo e, muitas vezes, atentando contra a própria vida. O sofrimento é tão grande que é maior do que a noção de pecado. 

    Na clínica já encontrei dezenas de sujeitos assim e comecei a perceber uma contradição ainda mais intrigante. Se o religioso acredita verdadeiramente na vida após a morte, como ele pensa no suicídio como uma alternativa viável para pôr fim ao sofrimento que sente? O que garantiria, de fato, que ao morrer ele estaria livre daquilo que padece? 

    Quanto um ateu, agnóstico ou alguém pouco teísta atenta contra a própria vida é comum ouvir como justificativa o desejo de desaparecer, de deixar de existir. Ora, se o religioso crê em uma existência eterna, como ele recorre ao suicídio para deixar de sofrer? 

    Já ouvi de pessoas protestantes, em teoria extremamente evangélicas, que queriam morrer para "tudo acabar". Percebe a contradição? Como tudo vai acabar se existe uma vida após a morte que é eterna? 

    Como disse, carece de muito mais aprofundamento. Não é meu papel, na clínica, questionar o sujeito sobre isso, ainda mais levando em conta que ele já está experienciando uma dor enorme. Mas, para além da contato direto com o paciente, este é um fenômeno que sempre me intrigou. 

    Vejo uma hipótese que pode ajudar a responder a essa questão: talvez ninguém seja absolutamente convicto de suas crenças, como realmente diz ser. E, num momento de extrema angústia, suspende suas próprias crenças a ponto de desejar, verdadeiramente, deixar de existir ou, no mínimo, se livrar daquela dor, mesmo que isso implique em seu desaparecimento. 


Lucas Alves

CRP04/67750

Insta: @psi_lucashfalves

Comentários

Postagens mais visitadas