A psicanálise e o humor
A psicanálise sempre considerou o humor um elemento importante de ser compreendido, afinal, revela muito do ser humano e de suas formações inconscientes.
Freud escreve em 1905 um livro chamado "O chiste e sua relação com o inconsciente". Ele traz, nessa obra, um estudo completo sobre alguns fenômenos que fazem parte das relações humanas.
A palavra chiste vem do alemão "Witz", que significa gracejo. Freud desenvolve o conceito de chiste como uma espécie de válvula de escape do inconsciente, utilizado para dizer, em tom de brincadeira, algo que verdadeiramente se deseja ou se quer dizer. O chiste é construído a partir de uma ideia reprimida no inconsciente, ou de impulsos e afetos inaceitáveis que ali habitam. Essa ideia reprimida, como se sabe, força passagem para a consciência. Portanto, o chiste é uma formação do inconsciente, assim como os sonhos, os atos falhos, os lapsos e os sintomas.
O chiste é uma forma de inteligência que envolve, sobretudo, palavras. É uma forma de utilizar a linguagem, um processo social que, para ser produzido, envolve um laço com o outro. No chiste, escapa-se uma verdade do que é oculto, reprimido, produzindo uma satisfação, visto que escapa, em tom de humor, de um lugar inconsciente.
Há chistes de pensamento e chistes de palavras. Quando fazemos alusões, deslocando uma ideia para outra e expressando isso pela via da linguagem, estamos fazendo chistes. Quando deformamos palavras, a fim de produzir um neologismo que erige novos sentidos, estamos diante de chistes de palavras. Palavras ambíguas, com duplo sentido, são exemplos claros. A palavra "detergente", pode ser desmembrada, em "deter gente", o que pode, a depender do contexto e intenção do falante, ser considerado um chiste. Esses mecanismos permitem dizer, de outro modo, sobre algo que seria proibido ou censurado, obtendo, em algum nível, satisfação e prazer.
Freud fez diferenciações, em sua obra, sobre o chiste, o cômico, o humor e a piada. A diferença principal seria que, no chiste, há uma presença inexorável de algo inconsciente, derivado de algum impulso hostil ou obsceno que busca vazão. Assim como o chiste, todavia, o humor, o cômico, as piadas, também estariam a serviço do princípio de prazer. O humor tem a intenção de evitar um sentimento doloroso individual, é uma maneira de transformar aquilo que é trágico, horroroso, impróprio, culposo em algo que produz riso. Ser humorado é conseguir rir de si mesmo, tornar cômico aquilo que pode ser vivenciado como trágico. Algumas abordagens da psicologia utilizam, inclusive, essa técnica como premissa fundamental de tratamento, como por exemplo a Logoterapia.
Na análise, o humor também está presente. Tanto por parte do paciente, que muitas vezes busca usá-lo como forma de falar sobre algo trágico, quanto por parte do analista como forma de interpretação. O humor abre a possibilidade de as defesas psíquicas se afrouxarem e se deslocarem. Ocorre um esvaziamento do estilo dramático da narrativa do paciente, que se depara com aquilo que está o mantendo preso em seu drama.
O ser humano sempre utiliza, também, de piadas. A piada, assim como o chiste, depende da presença de outras pessoas para existir e encontrar satisfação. É feita em grupos, demanda um terceiro envolvido. São formas de falar sobre aquilo que é proibido e observar, a repercussão disso, na reação das pessoas. O riso de um terceiro confirma que a censura foi contornada e o conteúdo, de alguma forma, aceito.
Em suma, apesar das diferenças conceituais que Freud fez questão de destrinchar, podemos pensar em todos esses conceitos dentro de um espectro do humor. Este, tem uma função de enfrentamento a repressão social, cultural e individual que gera desprazer. Graças a histórias engraçadas, piadas, chistes de palavras, descarregamos tensões que favorecem a liberação de nossas angústias, como em um catarse.
Lucas Alves
CRP04/67750
Insta: @psi_lucashfalves
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