A garota que chorava pérolas - Como as narrativas reverberam no tempo

 




"A garota que chorava pérolas" (2025) foi o curta-metragem de animação premiado com a cobiçada estatueta do Oscar. O filme canadense, é um conto sombrio, feito em stop-motion, com um visual bonito e único. 

A história é sobre um rapaz que vive em Montreal no início do século XX. Em situação de pobreza, busca vender os poucos itens que obtém em troca de dinheiro para sua subsistência. Muito observador, o rapaz começa a "espionar" as vivências de uma família, que parecia ser disfuncional. Seu olhar incidia, sobretudo, em uma moça, que, em sofrimento, costumava chorar todas as noites. O que o observador nota é fascinante: ela chorava pérolas. 

Mesmo já esbarrando num debate moral consigo mesmo, o rapaz dava um jeito de recolher essas pérolas e vender para um agiota. Por isso, muitos classificam esta obra, acima de tudo, como um sombrio conto de amor e ganância. De como o garoto, de algum modo, lucrava em cima do sofrimento singular da garota, que chorava pérolas. Ainda assim, não deixava de admirar ela e de querer estar com ela, embora nunca tenha se revelado. 

Entretanto, o que mais me chamou a atenção está na reviravolta final. O filme é uma contação de história de um senhor para sua neta. A neta estava atenta a cada detalhe da trama, quando o senhor revela a ela uma mensagem impactante: "é sempre a história que dá valor ao objeto. Nunca o objeto".

Essa mensagem ocorre pelo fato de que a ideia de que a garota chorava pérolas era uma narrativa fantasiosa. Uma história que foi se tornando verdade no discurso dele. Isso me fez pensar em como isso é uma realidade. Como o mundo é construído de histórias, de narrativas em que os fatos muitas vezes não são acessados ou estão sendo ignorados. Política e religião, por exemplo, contam a todo instante com a construção de narrativas que não dependem necessariamente de uma verdade absoluta, mas sim de quem conta e, especialmente, de quem acredita no que é contado. Mas isso não engloba apenas as narrativas de controle de massas. Envolve também as narrativas individuais que compõe o discurso de cada um nós. 

Nós contamos histórias, para os outros e para nós mesmos, o tempo todo. A memória, nossos desejos, nossa intencionalidade, vai alterando as narrativas e o produto final é único. Nós acreditamos nas nossas versões, nas nossas verdades e cabe ao outro comprar ou não nossa narrativa. 

É disso que se trata o conto da menina que chorava pérolas. No final, a neta do narrador se quer sabe se a garota existiu ou não. Por um tempo, ela acreditou que a garota de fato chorava pérolas, pois essa foi a história que o avô sempre contou. Mas a verdade era outra. Essa ideia que é sempre a história que dá valor ao objeto é pertinente. Podemos adaptar essa frase do filme da seguinte forma: é sempre a história contada que dá valor a um fato. Nunca o fato em si. 


Lucas Alves

CRP04/67750

Insta: @psi_lucashfalves



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