Cinco lições de psicanálise
"Cinco lições de psicanálise" é um apanhado da teoria psicanalítica do final do século XIX e início do século XX. Segue sendo interessante pensar a respeito desses primeiros postulados, que não se diferenciam, em essência, do ofício do analista nos tempos atuais. Ler este texto de Freud é bastante recomendado para os iniciantes nos estudos em psicanálise. Posto isso, deixarei este escrito recomendado especialmente aos interessados no saber psicanalítico, seja com interesse em uma possível prática - enquanto paciente ou mesmo analista - , seja com interesse teórico em conhecer o que a psicanálise trabalha.
Primeira lição
A chamada "primeira lição" do livro, remete a um dos primeiros grandes trabalhos de Freud, "os estudos sobre a histeria" (1893-1895). Neste livro, Freud, em conjunto com Breuer, traz casos clínicos de suas pacientes histéricas para elucidar o funcionamento da neurose histérica de sua época. A histeria é uma das grandes neuroses estudadas e analisadas por Freud, caracterizada por uma série de sintomas somáticos (no corpo), que não encontra explicação na medicina tradicional. Há uma gama infindável de manifestações histéricas, como por exemplo: tosse histérica, cegueira histérica, contrações agudas de músculos e membros, paralisia de membros, entre outros. O que Freud e Breuer concluem acerca da histeria é que as histerias tem sua origem em afetos internos e traumas psíquicos. Traumas, dizem respeito a acontecimentos na vida de um sujeito em que sua sua intensidade foi superior a capacidade do sujeito de atribuir um significado.
Assim sendo, Freud retoma seus estudos sobre a histeria, transmitindo o entendimento de que as histéricas sofrem de reminiscências. Isso quer dizer que os sintomas histéricos são resíduos e apresentam traços de símbolos mnêmicos derivados de experiências vividas pelo sujeito, que em grande parte das vezes estão reprimidas no inconsciente. Logo, pode-se afirmar que onde há um sintoma, há uma amnésia, ou seja, há algo que foi esquecido e reprimido. E, conforme postula a psicanálise, nada do que é esquecido deixa de ser utilizado pelo inconsciente. Neste caso, portanto, as emoções reprimidas estão sendo utilizadas para a constituição do sintoma.
Portanto, aquele sintoma histérico de uma pessoa carrega consigo uma marca, uma história, que está localizada em algum momento do desenvolvimento da pessoa. A análise, por meio da associação livre, busca trazer luz a este desconhecido, transformando o sintoma a medida que consegue acessar aquilo que o mantém.
Segunda lição
A segunda lição é, sobretudo, sobre o mecanismo de repressão e o mecanismo das resistências. Repressão e resistência, podem ser consideradas duas forças cujo objetivo é a manutenção do sintoma. A repressão ocorre mediante a um desejo violento, incompatível com as aspirações morais e estéticas da personalidade (o que mais tarde Freud denominaria de Supereu). Logo, há desejos no inconsciente, sobretudo os sexuais, que são insustentáveis, incompatíveis com qualquer moralidade. Assim sendo, esses desejos são expulsos, esquecidos, reprimidos da consciência à inconsciência. A resistência, é uma força que impede esse material reprimido de tornar a consciência. Por isso, mais tarde em sua obra, Freud formula que a resistência diz sobre tudo aquilo que atrapalha o processo terapêutico e que funciona como obstáculo para a evolução do tratamento. Isso ocorre pois, aceitar o impulso desejoso despertaria intenso desprazer e mal-estar, portanto, a repressão e a resistência buscam evitar o desprazer, protegendo a personalidade psíquica. Entretanto, não é uma solução deveras funcional, pois o impulso desejoso continua a existir no inconsciente, a espreita da oportunidade de se rebelar. Ocorre, pois, uma substituição, um substituto do reprimido, disfarçado e irreconhecível: o sintoma. É por isso que o sintoma carrega consigo uma semelhança, um traço mnêmico do reprimido. Pela psicanálise, com seu método de associação livre, desvenda-se o trajeto do qual se realizou a substituição, chegando no cerne da coisa reprimida.
Tendo em vista que todos nós lidamos com desejos reprimidos e inconscientes, Freud propõe soluções para lidar com o desejo reprimido: I- aceitação total ou parcial do desejo, desde que isso não ultrapasse limites socioculturais ou coloque em risco a vida ou integridade do outro; II- dirigir o desejo inconsciente a algo irrepreensível, o que Freud denominou como sublimação; III- reconhecer como justa a repulsa ao desejo. Neste último caso, o mecanismo inconsciente é substituído por um julgamento consciente. O desejo é trazido à tona, constrói-se um julgamento consciente sobre o mesmo e alivia-se o mal-estar relacionado a ele.
Terceira lição
A terceira lição é sobre a técnica psicanalítica. Conforme já adiantado, a técnica primordial da psicanálise é a associação livre. Falar livremente o que vem a mente possibilita uma forma de acesso as deformações do inconsciente. Como já mencionado, quanto maior a resistência, maior a deformação sofrida pelo desejo reprimido no inconsciente. São diversas deformações conhecidas pela psicanálise, estudadas por Freud em outros pontos de sua obra. Enumerarei a seguir algumas deformações do desejo inconsciente:
I- Sonhos: em seu livro "a interpretação dos sonhos" (1899), Freud estudo e analisa dezenas de sonhos. Considera os sonhos realizações disfarçadas de desejos reprimidos e inconscientes. Sendo assim, os sonhos seriam deformações daquilo que existe de mais profundo em nossa mente, são uma excelente via de acesso ao inconsciente;
II- Atos falhos e lapsos: Freud estuda os atos falhos, esquecimentos, erros e lapsos em sua obra "psicopatologia da vida cotidiana" (1901), e também entende tais acontecimentos como realizações de desejos inconscientes. Praticamente nada do que ocorre em nosso cotidiano é ausente de algum tipo de significação;
III- Chistes: estes são como válvulas de escape do inconsciente, utilizados para dizer em tom de brincadeira aquilo que verdadeiramente se deseja. Também são construídos por ideias reprimidas no inconsciente e foram estudados por Freud no livro "os chistes e sua relação com o inconsciente"(1905).
IV- Sintomas: como mencionado na lição anterior, os sintomas são substitutos da ideia reprimida e sempre carregam um traço dela.
Quarta lição
A quarta lição remete ao livro "Três ensaios sobre a sexualidade" (1901-1905). Este foi um dos livros mais polêmicos de Freud, pois causa um confronto e ruptura com o que se pensava sobre a sexualidade infantil naquele contexto. Freud postula que a criança já possui uma pulsão sexual desde seus primeiros meses de vida. Há componentes sádicos, masoquistas, voyeristas, exibicionistas, coprófilos, edipianos e voltados ao princípio do prazer desde a mais tenra infância. A criança está inscrita sob uma busca pelo prazer a base do autoerotismo. Ademais, a criança está inserida em um contexto em que ama, odeia e deseja seus pais, o complexo de Édipo. Este, molda a forma da criança amar, desejar e se relacionar e, a partir dele, surgem diversas repressões. Por fim, cabe mencionar sobre a sexualidade infantil, a curiosidade infantil, o intenso desejo da criança de saber de onde veio, de onde vem os bebês e o que são as formas adultas de se relacionar.
Quinta lição
Para fechar sua conferência, Freud explica como entende o adoecimento como resultante da falta, na realidade, da satisfação das necessidades sexuais. Atender aos desejos reprimidos e inconscientes seria impossível devido as regras e normas da civilização. Logo, diante dessa impossibilidade, surgem os sintomas e adoecimentos. Ao mesmo tempo, não há vida, não há arte, movimento e criatividade se não houvessem os impulsos do inconsciente. Para elucidar isso, Freud traz a metáfora do cavalo Schilda. Esta história diz sobre os habitantes de um vilarejo, chamado Schilda, em que os habitantes possuíam um cavalo cuja força e trabalho era admirável. Entretanto, o cavalo teria um defeito: consumia aveia demais e este suprimento era muito caro. Ocorreu que, diariamente, começaram um desmame de aveia no cavalo. Reduziam a aveia gradualmente. A princípio, o desempenho do cavalo continuava satisfatório. No entanto, noutro dia o cavalo amanheceu morto.
Nós inclinaremos a crer que o cavalo morreu de fome e que sem certa ração de aveia não podemos esperar em geral trabalho de animal algum. Nesta metáfora, o cavalo somos nós, e aveia é o conjunto de nossos instintos sexuais, tão reprimidos.
Referências:
Freud, S. Estudos sobre a Histeria (1983-1985)
Freud, S. A intepretação dos sonhos (1900)
Freud, S. Sobre a psicopatologia da Vida Cotidiana (1901)
Freud, S. Três ensaios sobre a sexualidade (1901-1905)
Freud, S. Os chistes e sua relação com o Inconsciente (1905)
Freud, S. Cinco lições de psicanálise e outros trabalhos (1910)
Lucas Henrique Ferreira Alves
CRP04/67750
Insta: psi_lucashfalves
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