A inexorável presença do imprevisível
Um dos maiores causadores de sofrimento, ansiedades e angústias é a condição humana de lidar com o imprevisível. Essa é uma condição tão inerente ao humano, que ao longo da evolução construímos uma série de conceitos que tentam dar uma lógica aos acontecimentos de nossas vidas. As religiões oferecem suas explicações: muitas religiões cristãs, por exemplo, atribuem a Deus uma posição de detentor de todos os caminhos possíveis. Ou seja, existiria uma data para o ser nascer e morrer. Assim sendo, a família de um sujeito que faleceu precocemente, de forma avassaladora e inesperada, sentiria-se mais resignada ao pensar que tal acontecimento foi porquê "Deus quis", ou porque "cada pessoa tem a sua hora marcada".
O espiritismo, doutrina profunda, interessante e complexa, explicaria tais desordens e acontecimentos sob uma lógica de evolução do espírito. Explico-lhes, de forma grosseira e rasa, que o espiritismo tentaria explicar um pouco das desgraças do mundo sob uma perspectiva de que, tais coisas acontecem porque tudo está em constante evolução, incluindo os espíritos. Logo, pagaríamos em vida por aquilo que outrora teria acontecido com nosso espírito.
Já os agnósticos, céticos e ateus, pensariam em acontecimentos trágicos como resultado, quase que imprevisível, das contingências do universo. Deste modo, teríamos no mundo seres que teriam um pouco mais de sorte e outros que teriam menos sorte. Estaríamos em um universo completamente indiferente às nossas aspirações e desejos. Buscamos viver bem, controlar aquilo que podemos, obter prazer, conhecer o máximo de coisas possíveis, amar, conviver... mas estaríamos lidando de forma ininterrupta com a presença inexorável do imprevisível.
Apresentei três pontos de vista sobre a forma do ser humano lidar com o imprevisível. Todos eles, partem da matriz comum de que o imprevisível existe. Nós, seres pensantes, não controlamos muito do que ocorre em nossas vidas. Há um determinismo aleatório que permeia nossa existência. Desses três pontos de vista, não há necessariamente um mais satisfatório que o outro. Precisaria ser estudado e quantificado como os cristãos, espíritas e ateus lidam com acontecimentos que não esperam. Mesmo os religiosos tendo suas explicações que produzem um certo conforto, isso não os exime de sofrer. Todos sofrem. Mas afinal, quais são esses acontecimentos trágicos que estou me referindo?
Vamos pensar da seguinte forma: nós somos lançados no mundo e na existência. Existimos. Diferente de todos os animais que conhecemos, construímos capacidades de conhecer cada vez mais daquilo que existe ao nosso redor. Pensamos, refletimos, filosofamos. Tentamos entender porque estamos aqui, qual nosso sentido, caminho e objetivos. A partir disso, lidamos com algumas questões existenciais que são universais. Irvin D. Yalom, explicita bem essas questões no que denomina de estruturas profundas da existência ou de preocupações últimas do ser humano. Estas seriam: a morte, o isolamento e a solidão, o significado e o sentido da vida e, por fim, o contraste eterno entre a liberdade de fazermos escolhas e a angústia que sentimos ao bancá-las.
Essas estruturas profundas da existência nos fazem, constantemente, sofrer. Talvez a que melhor se encaixe na ideia deste escrito, seja a morte e a eterna dúvida acerca do sentido da existência. Trago-lhes exemplos de onde quero chegar, ao associar esses mecanismos com a imprevisibilidade que estou descrevendo.
A vida no planeta Terra realmente parece ser aleatória. Não precisamos nem se quer falar do ser humano em si. Vamos pensar em todo ser que existe ou já existiu. Estes, estiveram aqui por alguns instantes do tempo e foram dizimados, sendo que muitas vezes foram dizimados por outros. Sim, como disse Ernest Becker, a natureza é um banho de sangue que se perpetua há bilhões de anos. Um cervo, recém nascido, já inicia sua transitória jornada de sobrevivência, até ser, eventualmente, devorado ainda em sua infância, por um predador.
Nós, seres humanos também vivemos essas angústias. Estamos no topo da cadeia alimentar, mas vez ou outra ainda nos deparamos com pessoas que foram destroçadas por outros animais. Mas não precisamos ir tão longe. Também, assim como um cervo, estamos guiados por uma pulsão de vida e sobrevivência, buscando chegar o mais longe que podemos, com a maior qualidade vida possível. Entretanto, lidamos com a presença do imprevisível quando percebemos que há inúmeras possibilidades de sofrer e morrer. É aí que, para muitos, tudo parece desconexo e aleatório.
Numa simpática casinha da cidade que habito, vivem duas queridas senhoras de mais de 90 anos. Lúcidas, inteligentes, ativas e saudáveis. Certamente elas sentiram suas dores ao longo de sua jornada, também lidaram, da forma delas, com as preocupações últimas do ser humano. Todavia, elas estão transmitindo suas boas vibrações alegres para todos que convivem com elas. Elas tiveram um privilégio fascinante de ter sobre(vivido) tantas décadas neste lugar. Privilégio que BILHÕES de pessoas não tiveram.
Começando da concepção, há muitos seres que nem mesmo nasceram. Surgiram como faíscas de um ser existente e já foram embora antes mesmo de receberem a luz da vida. Outros muitos, faleceram de formas sofríveis e impensáveis na infância, seja por doenças, violências ou tragédias. Tantas pessoas foram e continuam sendo ceifadas de suas vidas para abraçar o sono da morte.
Existimos, mas lidamos a qualquer momento com a possibilidade de algo reverter completamente o curso de nossa vida. Podemos estar aqui, saudáveis, e em dado momento descobrirmos uma doença terrível e inexplicável, que jamais pensaríamos ter. Sempre fui contra o ato de culpabilizar o doente por sua enfermidade, pois tantas pessoas são diagnosticadas todos os dias com doenças raras e inesperadas. Estamos sempre sujeitos a isso. E isso é um exemplo que estou chamando de a presença inexorável do imprevisível. Podemos ser como essas senhoras de 90 anos ou como uma alguém que faleceu em um incidente único.
Quando lidamos com tais perdas e sofrimentos, podemos entrar em crises existenciais profundas, passando a questionar com mais vigor o significado e sentido de nossa existência. Algumas abraçam a ideia que não há sentido em nada. Outros são convencidos pelas mais variadas explicações que as religiões oferecem.
Com toda essa reflexão, não tenho como intuito suscitar ou provocar reflexões existenciais. Elas certamente já existem em vocês. Quero provocar reflexões sobre o que fazer diante desse contexto. O que fazer diante do fato de que não controlamos tudo? O que fazer diante do fato de que as coisas não acontecem da forma que queremos? É por isso que além das explicações religiosas o ser humano construiu tantos pensamentos filosóficos ao longo de sua jornada. O hedonismo, o estoicismo, o carpe diem, o memento vivere, todas são formas de tentar desfrutar da existência, da nossa passagem por esse lugar, da melhor maneira possível. Indiscutivelmente, viver é uma experiência única, improvável e que oscila, a depender do contexto, entre uma coisa maravilhosa e algo digno de pena. É inesperado, portanto não espere. Viva.
Referências:
Yalom, D. Irvin. Os desafios da terapia (2002)
Becker, Ernest. A negação da morte (1973)
Lucas Henrique Ferreira Alves - CRP 04/67750
Instagram: @psi_lucashfalves

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